
Como é fácil a gente desistir da gente mesma. Não é uma coisa que dê pra perceber muito fácil não, mas é a mais pura verdade. Ontem eu estive pensando sobre isso, sobre quem eu era quando era uma criança. A criança, quando reencarna (para quem acredita nisso) traz consigo um temperamento formado, algo que está na sua alma. Que não tem a ver com a educação que vai ter ou com as crenças que vai assimilar ao longo da vida, mas com aquilo que a faz, de verdade feliz. Há quanto tempo você não sente, em si, uma felicidade como aquela de ganhar uma coisa que queria muito na infância? Por que a gente sempre acha que isso é "coisa de criança" e que nunca mais teremos? Será?
Lembro-me dos dois melhores presentes, aliás três, que eu recebi na infância. O primeiro foi uma régua, daquelas que quando você mexia as imagens se mexiam junto. Fiquei muito, muito brava porque a minha era da história de Jesus e a da minha irmã era da Mônica. Jesus? Poxa pai, que sacanagem. Eu nunca achei graça nenhuma nessa coisa toda religiosa, apesar de sempre procurar Deus, eu sabia que ele não estava na religião. As duas outras coisas, pasmes, não foram brinquedos, nem a casa da Barbie ou um bebê qualquer coisa, foram duas peças de roupas!
O primeiro eu ganhei aos cinco anos de idade. Confesso que me decepcionei um pouco quando abri e vi que era roupa, porque eu achava que ninguém nunca acertaria o que eu gostava mesmo. E era lindo! Ganhei dos meus padrinhos, era um conjunto de saia longa com camisa e um colete. A saia era creme com uma barra verda estampada, igual à camisa. E o coletinho era de crochê creme. Eu abri o presente, subi correndo as escadas do sobrado, no meio da festinha, porque eu queria experimentar. Tenho uma foto daquele momento, foi tão legal, eu estava tão feliz. O segundo era um vestido. Passei na frente da "loja da japonesa" do bairro e vi um vestidinho com um avental e uma bolsinha de tecido grudada. Apaixonei na hora! Eu queria o vestido, mesmo sabendo que seria difícil de eu ganhar, porque era bem caro. Falei dele por dias e dias. Até que meu pai, condoido da minha desgraça, me comprou o tal vestido. Lembro dele chegando num plastico transparente, pendurado num cabide. Fiquei tão, tão feliz com ele! Só ficava brava quando minha mãe me fazia vestir uma blusa de mangas compridas por baixo, ai que ódio! rs
E eu era muito, muito, muito curiosa. Muito mais curiosa do que agora. Eu via tudo, eu lia tudo o que me caía nas mãos, eu perguntava tudo para todo mundo, eu era a criança mais chata! Eu não tinha barreira, não me colocava isso. Quando eu queria, eu ia lá e fazia, como eu fiz com o cartaz do dia da árvore. Somente algumas crianças na sala de aula fariam, mas eu queria muito. Então eu fiz e levei e, no final, a sala só teve um cartaz de dia da árvore porque eu levei o meu.
Eu sempre amei estudar. Era a minha praia, total. Não tinha a ver com ser inteligente,como acabei sendo taxada, tinha a ver com a minha curiosidade. Nunca estudei pra uma prova até chegar no colegial, quando a coisa complicou demais e os interesses na vida também. A vida pra mim era um banquete que eu poderia me fartar.
E eu perdi isso. Não completamente, mas aquela espontaneidade, aquela ousadia, eu havia perdido. Fiquei com medo. Medo de fazer as coisas erradas, medo de não dar certo. Preocupada com tudo e com todos, cheia de neuras do que poderia ser a minha "responsabilidade". Virei a adulta que eu jurei que nunca seria. Séria, compenetrada, complicada. Ai, chega! Pelo amor de Deus! Cadê a minha menininha curiosa e ousada? Cadê aquela que mete as caras e pede pra ser a noiva da festa junina, não porque ser noiva me estimulasse, mas porque era o papel principal da festa. É isso, eu gostava (e gosto) de ser o papel principal, a protagonista! Por que diabos eu estou fazendo o papel de pedra?
Então, essa é a minha mudança e o meu desafio. Voltar a ser aquela menina ousada, que amava aparecer para todo mundo com a sua roupa nova no meio da festa. Que ama ser o centro das atenções e que não liga a mínima se era pra ela fazer o cartaz, porque ela fará de qualquer jeito. Essa sou eu! O pedaço da minha alma que ficou preso em algum escritório por aí, em alguma conta em atraso, em qualquer coisa que não é da minha natureza. Ser responsável é uma coisa, ser neurótico é bem outra!
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